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14 outubro 2007

A uma amiga querida

(Shoes, Van Gogh /1888 -Metropolitan Museum of Art, New York City)

É preciso saber que a nosso lado existe um eu antigo, educado nas práticas totalitárias da cultura hegemônica. Reinventar é um trabalho que requer paciência e atenção, mesmo quando o sono da inércia nos invade a alma e nos incita a dormir. O cansaço aí implícito é apenas a incorrigível vontade de ceder à sedução. A persistência promete o novo – e o outro eu pergunta: mas o que é o novo? O outro eu foi educado no silêncio de nossas vidas; conhece nossas verdades tímidas, aquelas que tivemos que deixar adormecer, e que talvez se tornassem nossas melhores qualidades. Muitas vezes já nem mais as sabemos; se confrontados com elas, podemos até nem as reconhecer. Serão muitas, certamente. Mas uma delas, com certeza, resiste ao tempo e espera; senta-se pacientemente a nosso lado toda vez que o cenário da ilusão se desfaz – é a certeza de que somos inteiros, perfeitos, amoráveis. Esta incansável verdade tímida espera que nossos olhos se voltem para nós mesmos e percebam que é aí que reside a fonte de todo amor. Que todos os amores sejam bem-vindos à nossa fonte generosa... mas se tiverem que ir embora, não levarão mais que os cenários de papel e sedução. Com as águas claras de nosso eu mais puro, lavaremos os olhos e o coração para saber reconhecer a diferença entre amor e ilusão. E isso é antes de tudo um exercício de paciência e vontade, que os sinos de vento da alegria vão anunciando até nos deixar ver – o amor e a felicidade residem em nós e, como o movimento dos rios, é inevitável que um dia se dê o transbordamento. E do outro lado, com certeza, haverá um mar... um mar que receberá as águas desse rio em suas águas próprias. Mas raramente temos paciência para esperar o curso natural de nossas vidas. É preciso curar o eu antigo e tudo certamente se dará.

Um beijo, amiga!

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