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09 outubro 2007

Travessia (quarta e última parte)


(Pablo Picasso - Mulher dormindo/1927)

Já escorregava para o outro lado e não conseguia mais me agarrar. Pesava-me aquele coração escuro que batia de volta no meu peito e me puxava para baixo. Ainda tentei segurar alguma coisa que sei agora que era a sua mão. Levantei a minha e não alcancei a sua que eu não via mais. Lancei a minha e agarrei o vazio, batendo em algo que veio junto, quando desci ao chão. Estanquei o desespero e o choro que não cheguei a chorar, tão aflita que estava para ler a mensagem, o mapa, a senha, o código, a chave. Era uma peça pesada, coberta por uma espécie de ferrugem verde que não me deixava ver senão o seu contorno. Era um brasão e tinha algo escrito, que eu limpava, limpava, limpava, inutilmente. Fiquei longo tempo ali, no escuro, certa de que vencêramos o tempo, a distância, aquela estranha distância. De repente uma luz branca, incômoda, me atirou em outro lugar, outro momento de uma memória fria, concreta, corpórea. Quis trazer o brasão, agarrei-o como um náufrago se atira a uma esperança vã. Tentei identificar os símbolos inscritos ao perceber que ele se apagava de mim. Não quis abrir os olhos, me recusei, não queria voltar! Fiquei longo tempo assim, chorando de olhos fechados, como quem empurra o corpo contra uma parede dura que nunca mais vai se abrir. E o meu coração estava lá, guardado em mim, doendo sozinho, tristemente sozinho. Os anos se passaram e o que era uma saudade grave estancou em solidão. O brasão ficou na memória limitada como um mistério e não mais uma possibilidade, um pacto, uma promessa – fio tênue que mantém uma esperança baldia, uma procura cansada, eterna, por alguém que não está, de quem sequer sei o rosto, e que se um dia encontrar certamente nem serei capaz de reconhecer.

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