Olha o poste.. Olha o pooste...
Olha o pooooste!!!
Os postes sempre exerceram uma atração singular na vida dos seres de todas as espécies e, na dos seres humanos, de forma muito particular. Por, em geral, sustentarem lâmpadas, estão sempre cercados de mariposas, pássaros noturnos e pequenos insetos que não resistem à sua atração, mesmo à custa, muitas vezes, da própria vida. Os postes que sustentam fios de alta tensão geralmente não carregam lâmpadas, mas exercem o mesmo fascínio, sobretudo nos seres humanos por volta da primeira infância, fenômeno que pode ser constatado nos subúrbios e nas áreas rurais onde sempre se poderá ver objetos como camisas, chinelos ou pares de tênis pendurados nos fios que os postes sustentam displicentemente. Sim, tão displicentemente que pode nos dar a impressão de que há um comprometimento entre os fios e o poste. Mas a impressão se desfaz à primeira chuva forte, tempestade ou ventania que lhes arrancam e jogam os fios ao chão. Permanecem lá os postes, impávidos e displicentes, enquanto a alta tensão dos fios ameaça os desavisados circunstantes - que geralmente não têm nada com isso e talvez jamais tenham topado com um poste na vida. E o poste... nem aí. Porque é de sua natureza e talvez seja esse seu principal ponto de atração. Se vivo fosse, Freud talvez explicasse os postes da modernidade pela sua forma – objeto fálico realmente. Na época do venerável Freud os postes tinham outra forma; carregavam lamparinas e belos arranjos que deixavam as luzes penderem de seu alto, desenhando bela curva descendente. Por isso, talvez, Freud não tenha se referido aos postes em sua época. Mas hoje...quem será que desenhou os postes como hoje se apresentam? Não vem ao caso de nosso objeto, mas seria interessante traçar o perfil psicológico da criatura. Voltando ao que nos ocupa, os postes estão caindo em desuso por motivos tecnológicos e, muito provavelmente, acabarão por desaparecer dos discursos dos seres humanos, deixando de exercer a forte atração que hoje vemos. E o que desaparece do discurso acaba por desaparecer da realidade. Seria interessante estudar os prejuízos psicológicos que o desaparecimento dos postes causa na vida dos cães – certamente haverá algum tipo de mutação genética nos seus delicados complexos urinários. Mas voltando a tão importante tema, a extinção dos postes alterará a análise de acidentes em relação a curvas e derrapagens. Ainda não se conseguiu explicar a grave atração dos postes nas curvas das estradas. Parece que abduzem algumas criaturas que invariavelmente se esborracham e às vezes alcançam a morte! Os estudos nessa área ainda incidem apenas sobre as curvas – às vezes, belas curvas, sem um milímetro que se possa criticar. Pontos críticos...neles sempre há um poste! Com as redes de alta tensão subterrâneas, os postes tendem a desaparecer da vida em sociedade. Temos que analisar a relação do desaparecimento dos postes com o crescimento dos consultórios psicanalíticos - cuja função primordial é fuçar os subterrâneos! E os bêbados? O que será dos bêbados sem os postes que lhes delimitavam o rumo? Aliás, uma corrente de pensamento acredita que o encantamento por postes é inato em alguns seres, o que os leva a tornarem-se bêbados. E as prostitutas românticas que faziam ponto sob sua luz e se encostavam neles vagabundamente? Outra corrente filosófica acredita que foram as prostitutas que construiram o simbolismo dos postes. E os revolucionários que encontravam suporte para seus reclamos? Os distraídos que se chocavam com eles e faziam a calçada toda rir. As calçadas sem postes já não serão as mesmas... A extinção dos postes poderá indicar uma evolução na vida dos seres humanos e de alguns animais. Mas como todo percurso evolutivo é longo, temos motivo para inferir que alguns seres ainda guardarão o arquétipo do poste em suas memórias afetivas, resistindo à realização do complexo e moroso trabalho de progresso a que está inevitavelmente fadada a humanidade. Os seres humanos vão ter que aprender a se encontrar sem a demarcação dos postes, onde invariavelmente estacionam por longo tempo ou se chocam até a morte. Tudo o que faz o homem estacionar é atraente...uma questão de preguiça existencial que nem Freud conseguiu explicar. Mas as mariposas? Essas temos que estudar à parte. O que atrai as mariposas? O poste ou a luz? Não importa, elas também acabam morrendo por isso. As mariposas, um dia, também serão obrigadas a evoluir, como tudo na vida. Mas que isso não nos custe a luz!
(Agradecimentos ao CNPq e à CAPES, sem os quais esse arrazoado não seria possível...hehehehehe)
Um comentário:
Mais um belo texto, sem dúvida. Parabéns!
Com o tempo e um pouco de treino, a gente aprende a ler as entrelinhas. Contudo, o que está subjacente ao texto requer mais umas duas leituras, pelo menos. Fico devendo um comentário mais objetivo.
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